Nem
sempre as coisas acontecem como a gente quer que aconteça. Que me perdoem os
perfeccionistas, mas a imperfeição é linda. Não tanto quanto a ignorância, mas
ainda assim, bela. Para os que acreditam em destino, vocês não fazem nada mais
além de confiar no improvável. Na sorte, por assim dizer. Há quem diga que a
sorte é uma coisa boa, mas na verdade o azar é algo inexistente. Por isso a
sorte na verdade deveria se chamar entropia. Pois tudo que é entrópico é
improvável, imperfeito, desconexo. Assim como a dita-cuja sorte. Acredite, se
você ganhou na mega-sena, você ganhou por acaso. Se você escorregou no meio da
rua, isso também foi obra do acaso. Não é porque Deus quis. Se Deus realmente
existe, ele não tem o menor tipo de influência nessas coisas. Não porque Ele
não pode ter influência, simplesmente porque Ele não quer. Provavelmente Ele se
diverte vendo nossa luta contra (ou a favor) do acaso em nossas vidas.
Costumo relacionar alguns
sentimentos com o acaso. Por ora, o amor. Que todos desejam, que todos anseiam
por preservar. Indubitavelmente, meu sentimento favorito. Quem, afinal não
gosta de sentir aquele friozinho na barriga, as mãos transpirando suor, aquela
vontade de estar por perto? Pois bem, o amor também é puramente fruto do acaso.
Você não decide quando ou quem você ama, e quando você vai se apaixonar por
alguém. Até aí tudo simples, você decidiu se acostumar com isso. Mas e os
amores pra vida inteira? Quem estabelece os limites do amor? Não somos nós. Nem
mesmo Deus, caro leitor. Como eu já disse, Deus
não quer controlar o acaso. Ele pode ter criado o amor, mas o amor por
si tem vida própria.
Bem, isso esclarece alguns pontos a
respeito do amor, que todos nós temos dúvidas, principalmente o famoso paradoxo
da “mulher de malandro”. Você sofre de amor (sim, amor é uma doença), e não
existe remédio que o cure (não que alguém queira ser curado de amor, na
verdade). E todo o o tipo de perjúrio que você sofre, você não sofre porque
você é uma pessoa estúpida que tem o dedo podre. A lógica é simples: toda
doença tem sintomas. Um dos sintomas do amor, talvez o pior deles, é dar a nós
a imensa propensão de cometer erros. Ocasionalmente, você faz a coisa certa
quando você ama, mas na maioria das vezes, tudo o que você faz é um erro. Ou
melhor, diremos que você até acerta, mas acerta por engano. Todavia, o amor
funciona como o próprio acaso, afinal de contas, ele é fruto dele. Quando
sofremos de amor, estamos presos à vontade do acaso. Você não tem escolha, não
tem saída. E isso é o mais belo do amor. Você se prende de uma forma tão forte
ao acaso, mas tão forte, que você simplesmente se esquece dele. Logo, voltamos
à nossa vida de planos e pretensões, mas doentes de amor.
Pois bem, presos à imprevisibilidade
do amor, o que devemos fazer? Agir contra o acaso, mesmo que eventualmente o
acaso vá de encontro a você, ou simplesmente se deixar levar? Essa pergunta me
bate à porta da mente muitas vezes, porque meus interesses pessoais entram em
conflito constante com meu amor irracional e, quase sempre, eu acabo me
deixando ir. Vou boiando levemente nas águas bravas do acaso, como se ele
simplesmente não existisse. Não é bem o nirvana, mas eu pelo menos aceitei o
acaso como inevitável. E o amor também. Afinal de contas, sofrer de amor não é
ruim. Muito provavelmente não chega nem perto da receita de ter um amor pra
vida inteira. Mas se essa receita é decidida pelo acaso, quem sabe?
- Escrito por André Chamon, 2013.
Nenhum comentário:
Postar um comentário