Foi debaixo daquela árvore morta, com folhas pretas refletindo toda a escuridão e sofrimento, que rasguei a única foto que tive, registrando um dos meus melhores momentos.
Passei a olhar o céu fechado com nuvens carregadas e pesadas, pingos de chuva carregando dor e fazendo estremecer tudo que tocara. Sensação que a cada pingo em minha pele, uma navalha me cortava. Era tão pesado e culposo, eu não sabia lidar mais com tudo aquilo. A tristeza de deixar todo um passado pra trás é inexplicável. Como?
Não sei se "como" é a pergunta mais correta, mas é a única que me vem a mente. Será tão fácil assim sair da vida de alguém e fingir que nada aconteceu? Nada teve significado e que não tirou nenhuma aprendizagem?
Voltei para essa árvore atrás de respostas, mas só consigo sentir o cheiro de terra molhada e os pingos cortantes em meu rosto. Eram as únicas lágrimas. Eu não tinha mais porquê chorar, não mais.
Revejo fotos das quais não estou e tiro a conclusão que talvez eu nunca devesse estar. Algo sem sentido, sem valor, sem fundamento. Sem nexo. Não era pra eu fazer parte.
E é debaixo dessa árvore que rasgo a única foto em que estou presente para que volte a ter cor e prospere como a natureza sugere. Estou dando adeus à solidão.
Texto inspirado na música " Farewell Solitarie", CC.